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Reescrevendo a história...

  • Chi-Ro
  • 9 de set. de 2019
  • 4 min de leitura

Durante o período de 1920 e 1930 o governo soviético se movimentava a toda velocidade com seus projetos de transformação da sociedade e consolidação de poder. Uma das muitas áreas a serem dominadas era a da arte. Muitos meios foram utilizados como, por exemplo, o decreto da Reorganização da Arte e das Organizações Literárias; com esse decreto, os artistas e toda a forma de arte ficaram sob o controle de dois sindicatos: Todo aquele que trabalhasse com a produção de conteúdo artístico deveria obrigatoriamente se registrar nos sindicatos e apresentar seu trabalho para “revisão”. Se o sindicato aprovasse o material, então ele poderia ser utilizado; caso contrário, o material seria proibido e o artista deveria produzir algo diferente, mais próximo da “arte comunista”, (como o Realismo Comunista). Para auxiliar neste trabalho, cada sindicato possuía um departamento chamado de "Serviços de Segurança", que nada mais eram do que agentes da polícia secreta soviética, a NKVD (futura KGB). Além da polícia secreta, os sindicatos ainda contavam com inúmeros informantes informais que “ficavam de olho” nos artistas. Porém, nem sempre a questão poderia ser resolvida com o controle burocrático.

Um dos casos em que isso aconteceu foi o Primeiro Congresso Ucraniano de Lirniki e Banduristy. Convido ao leitor refletir neste pequeno trecho retirado do livro "Desinformação", do Tenente-general romeno Ion Mihai Pacepa:

“Cantores na União Soviética não passavam tão bem. Arte nativa era considerada contrarrevolucionária porque, como a maior parte da arte antiga, era por natureza religiosa. Enquanto tal, foi extirpada nas décadas de 1920 e 1930. Em alguns casos isso foi feito com grande brutalidade.

Desde tempos imemoriais, cantores têm vagueado pelas estradas da Ucrânia. Lá eram chamados de lirniki ou banduristy. Eram quase sempre pessoas cegas… e indefesas, mas ninguém nunca lhes fez mal. Machucar um homem cego – que haveria de mais mesquinho que isso? E então, em meados da década de 1930, o Primeiro Congresso Ucraniano de Lirniki e Banduristy foi anunciado, e todos os cantores tiveram de se reunir e discutir o que fazer no futuro. “A vida está melhor, a vida está mais alegre”, disse Stalin. Os cegos acreditaram nele. Vieram para o Congresso, de toda parte da Ucrânia, de aldeias minúsculas, esquecidas. Havia várias centenas deles no Congresso, dizem. Era um museu vivo, a história viva do país. Todas as suas canções, a sua música e poesia. E foram quase todos fuzilados, quase todos aqueles cegos comoventes foram mortos.

Os cantores foram mortos porque a coletivização estava a caminho, porque os soviéticos tinham eliminado os kulaks enquanto classe e porque esses cantores estavam cantando música de conteúdo duvidoso. As canções não foram aprovadas pelos censores; na verdade não poderiam sequer ser submetidas à apreciação. Não eram escritas. “Você não pode entregar para um cego uma versão de texto corrigida e aprovada e tampouco você pode lhe dar uma ordem por escrito. Tudo você tem de falar para um cego. Isso leva muito tempo. E assim você não tem como arquivar uma folha de papel, e além disso nem há tempo. Coletivização. Mecanização. Era mais fácil atirar neles.”

O congresso não foi o fim da perseguição aos Banduristy. Muitos deles estavam sendo presos e mortos ainda durante os anos de 1980. O regime soviético, assim como todos os outros governos comunistas, tinha a necessidade de controlar não só as ações, mas também o pensamento e a realidade da população; entendiam que qualquer tipo de artista só poderia trabalhar e produzir algo se este se submetesse ao controle do Estado.

Muitos tentaram continuar seu trabalho sem o registro nos sindicatos; por consequência, poetas foram presos e pintores fuzilados. A história e a cultura de uma nação com centenas de anos e de um povo que já habitava aquelas terras muito antes: tudo isso foi destruído ou modificado de acordo com as necessidades do regime, e a identidade da população apagada e reescrita. O indivíduo era russo? Ucraniano? Não. Ele era um cidadão soviético, parte de um governo formado por “trabalhadores” como ele. O governo o lembra constantemente de que ele deve lutar pela nova pátria, de que seu objetivo de vida, como parte do proletariado, era viver para sustentar o estado e a revolução. Todo o sofrimento que ele poderá ter em sua vida e todas as ações que ele cometerá em nome da revolução devem ser visto como insignificante perto do grande futuro da sociedade perfeita que o regime prometeu. Se ele não viver para ver isso acontecer, não há problema: seu filho continuará o trabalho, sem questionamentos e sem dúvidas.

Assim, a União Soviética seguiu seu curso: como um especulador no mercado econômico ela extraiu tudo o que podia de sua população até não poder mais e depois largou a mesma na miséria econômica e na destruição moral e psicológica que até hoje não foi curada em sua totalidade. Após a queda da URSS o movimento não acabou. Pelo contrário, ele se espalhou ainda mais pelo mundo agora que a “Cortina de Ferro” havia caído e o comunismo havia “acabado”. Todos estavam seguros de que os doentes haviam sido curados e de que a peste tinha desaparecido. Baixando sua guarda, o Ocidente abriu suas portas para que a pestilência vermelha entrasse em suas casas com mais facilidade que antes, onde ela se encontra até hoje. Encerrando, vale citar o comentário do desertor soviético Yuri Bezmenov. Em 1983 ele estava dando uma entrevista em um programa de TV americano (vídeo ao lado) sobre a situação atual do conflito entre o Ocidente e o Bloco Comunista. Ao ser questionado sobre o nível de influência dos ideais comunistas nos Estados Unidos, Bezmenov responde:

“O processo de transformação cultural nos EUA está praticamente completo a essa altura. Poderia dizer que foi até além do que o previsto. Nem o camarada Andropov (chefe da KGB, a polícia secreta soviética) e nem seus especialistas poderiam sonhar com tamanho sucesso.”

Referências:

1. PACEPA, Ion Mihai. RYCHLAK, Ronald J. Desinformação. Vide Editorial. 2015: 1ª edição.

2. Wikimedia Commons. Kharkiv trio 1911 (imagem do topo). Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kharkiv_trio_1911.jpg. Acesso em 09 de Setembro de 2019

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